No PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) existem muitas cavernas. Cada uma delas tem uma personalidade distinta, seja pela presença ou ausência de luz, seja pela dificuldade dos caminhos para desbrava-las ou simplesmente pela textura das pedras que as compõem.
Refletindo sobre minha própria jornada como mãe, encontrei a lembrança da visitação de uma caverna em especial, bem antes do Bernardo existir. A Caverna do Couto.
Toda caverna é formada pelo desejo persistente da água. Querendo chegar em outro lugar ela esculpe pacientemente seu caminho através de rochas e montanhas por milhões de anos. As cavernas são úmidos e escuros testemunhos de um desejo.
A Caverna do Couto não é diferente. Há muito tempo atrás um rio desejou atravessar a montanha e criou, com isso, um túnel inclinado que liga duas faces opostas do monte. O testemunho do seu desejo permaneceu nas pedras e seixos que cobrem o chão da caverna.
Lá dentro o guia nos convida a uma experiência: que tal explorar a caverna sem a visão? Nós apagamos todas as luzes e somos convidados a explorar a caverna com os outros sentidos.
A escuridão é completa. Não podemos ver nem a entrada nem a saída da caverna. Minhas mãos procuraram as paredes irregulares e ásperas mas eu acabava me desequilibrando. Os pés vacilavam. A angústia de seguir em frente fazia com que eu tropeçasse nas pedras sem conseguir firmar os próximos passos. Chutei pedras, ralei a mão e os braços, tropecei em seixos e percebi o quanto era dependente da visão. Meus outros sentidos mal conseguiam se organizar para que eu permanecesse em pé diante da escuridão!
Há alguns dias atrás lembrei desse episódio de viagem enquanto refletia sobre a dificuldade de seguir em frente quando não há uma saída disponível no horizonte.
O Bernardo enfrenta sua maior internação hospitalar. Hoje são 47 dias de UTI Pediátrica sem a menor perspectiva de alta no horizonte. As crises convulsivas dele são de muito difícil controle e muitos medicamentos já falharam nessa tarefa. Ficamos cada vez mais próximos dos fantasmas de uma epilepsia refratária ou até de uma epilepsia intratável. A oferta de fármacos disponíveis vai diminuindo. As crises vão piorando e algumas só cessam com sedação venosa contínua. As adversidades vão se agigantando tanto que eu me vi na mesma situação da caverna: desorientada, desequilibrada e extremamente angustiada.
Meu primeiro passo foi parar. Eu precisei parar de procurar palavras, diagnósticos e prognósticos para conseguir viver o AGORA. Pode ser que essa caverna não tenha fim, por motivos que só Deus sabe, mas se eu me desesperar com essa possibilidade esquecerei de aproveitar a beleza de cada passo. De cada tropeço. De cada arranhão. Há beleza na dor, por mais que as pessoas evitem ao máximo contempla-la.
Uma vez situada no presente não importa mais olhar para trás, procurando a entrada da caverna. Lá não há luz. Nem cerrar os olhos procurando angustiada pela saída. Lá também não há luz.
É preciso olhar para o presente. Contemplar cada passo.
Saborear cada gesto.
Respirar cada momento.
Por mais que pareça que estamos imersos na escuridão o AGORA é o único lugar onde há luz abundante...
A luz que emana do amor que nos une nessa caminhada!
sexta-feira, 3 de junho de 2016
A Caverna da Maternidade Extraordinária
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