segunda-feira, 18 de julho de 2016

A difícil arte de tomar decisões

Tomar decisões sempre foi algo muito difícil para mim. Alguns dizem que isso acontece porque sou libriana, mas eu não sei se acredito tanto assim no poder da astrologia.
Enquanto eu gerenciava “apenas” minha própria vida as coisas eram um pouco mais fáceis. Muitas vezes eu terceirizava as escolhas ou simplesmente me abstinha de decidir. Hoje eu entendo que não decidir já é por si só uma decisão bastante importante que pode mudar o rumo de muitas coisas.
A maternidade inaugura um novo nível de responsabilidade com as decisões. Aquela vida que cresceu durante 40 semanas dentro do meu corpo hoje vive e persevera como um Outro diferente. Alguém que vive, respira, sorri e brinca, mas ainda depende totalmente da minha capacidade de tomar decisões.
Essa é uma característica comum a todos os tipos de maternagem, mas no caso de mães de crianças extraordinárias as situações são mais extremas porque envolvem riscos reais e um vislumbre nada agradável da morte que sempre nos acena no horizonte.
Como, então, fundamentar uma escolha? Minha formação acadêmica faz com que eu sempre procure as evidências científicas por trás dos diferentes tratamentos, mas isso não elimina os riscos envolvidos nem os prognósticos possíveis.
Esgotadas a racionalidade e a ciência surgem as particularidades que nos fazem humanos. A capacidade de sentir e desejar profundamente algo. A fé!
É nesse momento que se conciliam ônus e bônus. Riscos e benefícios. Alegrias e tristezas. Sonhos e pesadelos. Eu respiro fundo e entrego. Confio na sabedoria por trás de toda escolha enquanto espero pelo melhor.
Assim vivi os últimos 10 meses da minha vida. Os mais difíceis, mas sem dúvida os mais maravilhosos. Desconfio que a intensidade das alegrias seja proporcional à dificuldade das escolhas que me levaram até elas...

sexta-feira, 3 de junho de 2016

A Caverna da Maternidade Extraordinária

No PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) existem muitas cavernas. Cada uma delas tem uma personalidade distinta, seja pela presença ou ausência de luz, seja pela dificuldade dos caminhos para desbrava-las ou simplesmente pela textura das pedras que as compõem.
Refletindo sobre minha própria jornada como mãe, encontrei a lembrança da visitação de uma caverna em especial, bem antes do Bernardo existir. A Caverna do Couto.
Toda caverna é formada pelo desejo persistente da água. Querendo chegar em outro lugar ela esculpe pacientemente seu caminho através de rochas e montanhas por milhões de anos. As cavernas são úmidos e escuros testemunhos de um desejo.
A Caverna do Couto não é diferente. Há muito tempo atrás um rio desejou atravessar a montanha e criou, com isso, um túnel inclinado que liga duas faces opostas do monte. O testemunho do seu desejo permaneceu nas pedras e seixos que cobrem o chão da caverna.
Lá dentro o guia nos convida a uma experiência: que tal explorar a caverna sem a visão? Nós apagamos todas as luzes e somos convidados a explorar a caverna com os outros sentidos.
A escuridão é completa. Não podemos ver nem a entrada nem a saída da caverna. Minhas mãos procuraram as paredes irregulares e ásperas mas eu acabava me desequilibrando. Os pés vacilavam. A angústia de seguir em frente fazia com que eu tropeçasse nas pedras sem conseguir firmar os próximos passos. Chutei pedras, ralei a mão e os braços, tropecei em seixos e percebi o quanto era dependente da visão. Meus outros sentidos mal conseguiam se organizar para que eu permanecesse em pé diante da escuridão!
Há alguns dias atrás lembrei desse episódio de viagem enquanto refletia sobre a dificuldade de seguir em frente quando não há uma saída disponível no horizonte.
O Bernardo enfrenta sua maior internação hospitalar. Hoje são 47 dias de UTI Pediátrica sem a menor perspectiva de alta no horizonte. As crises convulsivas dele são de muito difícil controle e muitos medicamentos já falharam nessa tarefa. Ficamos cada vez mais próximos dos fantasmas de uma epilepsia refratária ou até de uma epilepsia intratável. A oferta de fármacos disponíveis vai diminuindo. As crises vão piorando e algumas só cessam com sedação venosa contínua. As adversidades vão se agigantando tanto que eu me vi na mesma situação da caverna: desorientada, desequilibrada e extremamente angustiada.
Meu primeiro passo foi parar. Eu precisei parar de procurar palavras, diagnósticos e prognósticos para conseguir viver o AGORA. Pode ser que essa caverna não tenha fim, por motivos que só Deus sabe, mas se eu me desesperar com essa possibilidade esquecerei de aproveitar a beleza de cada passo. De cada tropeço. De cada arranhão. Há beleza na dor, por mais que as pessoas evitem ao máximo contempla-la.
Uma vez situada no presente não importa mais olhar para trás, procurando a entrada da caverna. Lá não há luz. Nem cerrar os olhos procurando angustiada pela saída. Lá também não há luz.
É preciso olhar para o presente. Contemplar cada passo.
Saborear cada gesto.
Respirar cada momento.
Por mais que pareça que estamos imersos na escuridão o AGORA é o único lugar onde há luz abundante...
A luz que emana do amor que nos une nessa caminhada!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Reencontro de almas

Foi uma semana dura. Vi meu filho sedado e entubado e me vi sem chão.
Testemunhar uma criança tão pequena sofrendo todas aquelas intervenções é uma das experiências mais dolorosas da vida. Ainda que ele fosse extubado a overdose de anticonvulsivantes o manteria em uma realidade paralela. Aquele ali, sonolento e hipoativo, não era meu filho. A sensação paradoxal de ter seu corpo ao alcance das mãos mas ter sua consciência em um universo paralelo é devastadora.
Eu me sentava ao lado do berço e imaginava os caminhos por onde aquela alma passeava. "Que sejam caminhos de alegria e cura", pensava. Vez ou outra via um sorriso involuntário, fruto dos sonhos que ele vivia em seu sono profundo...
Desde que o Bernardo nasceu eu tenho um medo profundo que me acompanha. Começou na alta da uti neonatal a minha aflição incessante achando que ele era cego. Sem enxergar, como ele me reconheceria como mãe?
Por mais que as pessoas tentassem afastar o delírio, dizendo que ele ainda teria todos os outros sentidos para me saber sua mãe, eu chorava.
A hipótese da cegueira foi descartada, mas o medo sempre permaneceu ali, rodeando, cercando pelas beiradas.
Nessa internação ele me invadiu completamente. Será que as convulsões tiraram dele a capacidade de me reconhecer? Será que esse reconhecimento permanecerá mesmo se o dano neurológico levar todo o resto embora?
Reconhecimento.
Embriagada por esse sentimento passei uma semana infernal. Meu corpo doía e chorava por qualquer coisa, enquanto conversava com Deus e comigo mesma, ao lado do berço, esperando os efeitos adversos da sedação passarem.
No final de semana cedi lugar para minha sogra e fui para casa. Dormi longas horas e cuidei do corpo cansado. Tive dezenas de sonhos. Fortaleci minha fé e otimismo e, no domingo a noite, regressei.
Entrei no quarto e vi meu filho acordado, comendo uma papinha salgada no colo de sua avó. Eu tinha vindo da rua, ainda não havia higienizado as mãos nem tirado a mochila das costas, mas me ajoelhei em frente a ele para que nossos olhos ficassem na mesma altura.
Ele abriu um sorriso imenso e olhou com seus olhos azuis no fundo da minha alma. Mexeu os bracinhos contente e ali, naquele momento, meu medo de não ser reconhecida foi aniquilado.
Fui invadida pela sensação de que aquele momento era apenas um REconhecimento. Que nossas almas são parceiras antigas, unidas pelo amor e maiores que o tempo ou as circunstâncias.
O corpo que nós dois habitamos é apenas a matéria necessária pra completarmos, juntos, essa missão.
Agora eu me reconheço mãe. A tua mãe. A melhor mãe que posso ser. O mais importante título que já ostentei nessa vida foi um dos presentes que ganhei com sua chegada. Você é a minha dádiva!
Dizem que o amor não conhece limites. Nossa parceria de amor também não.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Um sonho revelador

Cheguei em casa exausta após 36 horas seguidas no hospital, acompanhando meu filho. Dormi por umas seis horas seguidas e acordei com o corpo todo dolorido. Até o peito dos pés doía. O corpo expressava o que o coração transbordava.
Comi algo e uma amiga querida sugeriu que eu tomasse um banho de alecrim pra restaurar minhas energias e que tentasse dormir novamente.
Despejei aquela água cheirosa de alecrim no corpo todo. O mesmo alecrim que fora plantado pelo meu amor na floreira do nosso quintal. Fiz uma prece. Lembrei de São Francisco de Assis e cantei a canção dele. Chorei.
Deitei na cama e continuei chorando. Sentia meu corpo formigar. Orei novamente. Adormeci. Sonhei.
Estava no quintal da antiga casa da minha tia Cleire. Quintal esse que acolheu minhas melhores lembranças de infância e deu asas pra minha imaginação. Lá na escada que dava acesso à edicula estava o Bernardo sentado. Loirinho, crescido, lindo. Sorria e olhava pra mim com aqueles olhos azuis que devoram a minha alma. Ele abriu a boca... Queria falar alguma coisa.
Minha tia me cutucou e disse: "Olha, ele está tentando dizer a primeira palavra dele! Presta atenção!"
Paradas observamos a boquinha dele abrir e pronunciar três sílabas:

CA
MI
NHO

Caminho. A primeira palavra do meu filho era caminho.
Acordei.
Lembrei de quando ele nasceu e de tudo o que aconteceu nesses sete meses.
Caminho.
Lembrei que nos primeiros dias parecia que não haveria o dia seguinte.
Caminho.
Lembrei da sombra da incerteza que nos acompanha. Qual será a extensão das sequelas dele? Será que algum dia eu ouvirei sua voz?
Caminho.
Lembrei da luta árdua. Da descoberta da força que eu nem imaginava ter.
Caminho.
Uma certeza arrebatadora me invadiu. Nada mais importava. Não havia mais medo, insegurança ou incertezas porque havia a certeza do caminho que juntos trilhamos.
Nos tempos difíceis em que o passado é uma lembrança triste e o futuro uma desoladora incerteza, há o conforto do caminho.
Poder trilhar esse caminho ao seu lado filho, é um dos maiores privilégios que eu já tive em minha vida.
E junto de ti, caminhando, o amanhã já não importa. Só o amor que partilhamos hoje.
Amor e caminho.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Achados escritos

Quando eu estava grávida de 38 semanas estava muito aflita. Naquela noite não conseguia dormir de jeito nenhum, então resolvi escrever uma carta pro bebê que esperava. Eu e o Dani escolhemos não conhecer o sexo do bebê e até ali conversávamos com ele de maneira genérica.
Escrevi a carta em um caderno e chorei muito enquanto a escrevia. Fechei o caderno, guardei em uma gaveta qualquer  e fui dormir anestesiada pelas lágrimas e pela emoção.
Hoje, quase 6 meses depois, o Daniel procurava um caderno para rascunho quando encontrou esse e leu a carta que lá estava. Parecia um prenúncio de tudo o que viveríamos juntos futuramente.
Ele me escreveu emocionado após ter lido a carta e eu decidi compartilhar o texto aqui porque ele pulsa amor e verdade.

São Paulo, 8 de setembro de 2015.

Olá bebê!

Desde o começo dessa gestação eu venho querendo escrever. Separo papel, caneta e ímpeto e acabo nunca concretizando meu desejo. É que ao mesmo tempo que eu tenho TANTO para contar me parece surreal tê-lo como interlocutor. Acho que é porque eu tenho medo que você seja apenas mais uma ideia louca que habita dentro de mim, a despeito de todas as provas de sua concretude que eu encaro diariamente.
Juntos passamos por muita coisa desde que eu descobri que você morava aí dentro de mim.  Desde a descoberta,  até reviravoltas que a vida deu, nos mantivemos juntos e fortes. Confesso que fiquei mais apreensiva do que deveria em muitos momentos. Você vai testemunhar que o mundo aqui fora é bem cruel em alguns de seus discursos e isso me causou, em alguns momentos, profundo desgaste.
É que eu te desejei TANTO, te imaginei TANTO, que quando me vi grávida achei que a vida estava me zombando. Que eu não era merecedora da dádiva. Que todas as boas coisas que me chegavam seriam contaminadas por problemas. Posso dizer que passei as últimas 38 semanas repetindo pra mim mesma que NÃO! Que você me escolheu pra ser sua mãe, que abdicou e renunciou de coisas que eu nem consigo imaginar para estar JUNTO comigo e com seu pai. Para aprender conosco. Para nos ensinar. Eu venho repetindo isso dia e noite, mas algumas coisas não são fáceis de reprogramar em nossas cabeças.
Desde muito pequena eu cresci acreditando que havia um problema comigo.  Mais especificamente com meu corpo. Que meu desenvolvimento era diferente das meninas minha idade e que isso me fazia pior, a esquisita, um ser estranho. Ficou mais esquisito quando todas as meninas menstruaram e eu não. Os exames apontavam que tudo estava bem, mas meu tempo era diferente e eu aprendi a detestar e abominar essa minha “demora” para as coisas.
Isso se repetiu muitas outras vezes depois, em outras ocasiões e circunstâncias. Apesar da vida adulta ter me proporcionado um montão de quebras de paradigmas, essa sombra permanecia silenciosa ao meu lado. Ela se manifestou feroz quando comecei a tentar engravidar. Eu pensava: “se meu corpo é devagar pra tudo, quem disse que vou conseguir engravidar logo?”. Só que você queria muito vir pra minha vida e logo no primeiro mês recebi o anúncio de sua existência em mim.
Passamos 38 semanas juntos sem nenhuma intercorrência médica séria. Parece que esse corpo do qual eu sempre desconfiei fez um trabalho Incrível gestando um bebê grandão e saudável.  Até que a linha de chegada foi se aproximando e eu me vi, mais uma vez, assolada pelo medo. Eu pensei: “e se eu não entrar em trabalho de parto?”,  mesmo sabendo que isso é cientificamente impossível. Quando você estiver aqui fora vai entender que informação é diferente de crença, às vezes não adianta saber muito uma coisa se dentro de você brotam vozes dissonantes, dúvidas e questionamentos. Eu me deixei levar e, nas últimas semanas, fui acometida por uma crise de bronquite absurda, que não acontecia há muitos anos. Não conseguia falar, respirar, deitar, dormir, NADA. Só escutava meu peito congestionado chiando e eu tossindo e tossindo dia afora. Era o medo instalado em meus pulmões. O fantasma da minha incapacidade me congestionando. Já consigo respirar melhor, mas ainda não me sinto completamente livre do medo. E este é só o primeiro de muitos que vou experimentar ao ingressar no universo da maternidade. O medo de ser incapaz de te trazer pra esse mundo só vai mudando de “cara” conforme mudam as dificuldades que você terá que enfrentar.
Digo isso com o coração apertado, porque desde já queria poder te proteger de tudo de ruim, difícil, pesado ou negativo que existe nesse mundo, mas não posso. Porque essas experiências nos constituem, nos tornam quem nós somos. Eu sofri muito pra chegar até aqui. Todas as pessoas sofrem. Mas foi a certeza do amor daqueles que me rodeavam que me manteve de pé. Que permitiu que eu estivesse aqui HOJE te esperando.
O mesmo amor que me mantém em pé será o que vai te ajudar a se sustentar nos momentos de dor e sofrimento. Quando não houver mais certezas, ainda assim haverá o testemunho do amor de tantos, pra te ajudar a dar o próximo passo. Amores eternos dos tantos passageiros com quem partilhamos essa existência (e tantas outras).
Peço desculpas pela angústia e afobamento dos últimos dias. Eu te aguardo com tanto amor e curiosidade de mal consigo me conter e relaxar. Venha quando estiver pronto. Eu confio que o amor tem a resposta para todos os meus e os seus medos e aqui fora poderemos partilhar a forma mais pura dele.
Como eu já te disse muitas vezes, seu pai, a Maggie e o Sansão te aguardam ansiosos, junto com uma família numerosa cheia de coisas pra compartilhar contigo. Até aqueles que já foram te aguardam ansiosos.
Te amo. Te espero. Venha assim que puder.

Todo o amor do mundo
da sua mãe,
Natasha

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Crônica da solidão hospitalar

10:50 - O segurança passa e espia pelo vidro se o paciente Bernardo continua internado. Anota alguma coisa em sua prancheta e vai embora.

11:00 - Horário de medicação. Após o procedimento a enfermeira sai do quarto deixando a porta aberta. Sentada na poltrona vejo o postinho de enfermagem e toda a movimentação de pessoas lá fora. É horário de visitas, mas parece que não veio ninguém nos visitar. O Bernardo resmunga de sono e acaba adormecendo no meu colo, enquanto meu olhar se perde na movimentação lá de fora.

14:50 - Mais uma vez aparece o segurança. Prancheta em mãos para confirmar que o Bernardo ainda está aqui. Como eu queria que ele não estivesse, moço! Infelizmente querer não é poder.

15:00 - Através do vidro jateado vejo os contornos da minha mãe. Ela surge com o esvoaçante avental azul dos visitantes e já traz os olhos rasos d'agua. Dos pouco mais de 150 dias de vida do Bernardo já ficamos 56 internados. Um terço da vida dele. Um terço da nossa vida com ele. Ela elogia o aspecto saudável dele e pede que eu tenha força. Anuncia que precisa ser rápida porque meu tio e minha tia estão na recepção e querem entrar também e para isso é preciso revezar. Eles três são os guardiões do meu amor mais ancestral e trazem consigo a força que eu preciso para viver mais sabe-se lá quantos dias dentro deste aquário. Cada um se despede com um abraço demorado e percebo como fazem força para represar o choro. Está tudo bem, gente. Está tudo bem.

20:50 - Outro segurança aparece no corredor. Não, nós não fomos pra lugar nenhum. E pra ser sincera nem previsão de ir pra outro canto nós temos.

21:00 - As vezes alguém aparece. As vezes não. Eu fico torcendo que alguém de fora venha me abraçar e dizer que tudo vai ficar bem. Mesmo que ninguém saiba ao certo. Mesmo que seja mentira. É o reforço da dose de esperança que eu preciso pra não naufragar no oceano de maus prognósticos e estatísticas piores ainda. A vida na UTI é solitária e monotematica.

23:00 - Minha sogra ou meu marido assumem o plantão noturno. Eu volto pra casa sentindo como se tivesse passado o dia dentro de uma caverna. O corpo descansa na cama, mas a cabeça permanece hospitalizada. Diurese. Evacuação. Sinais vitais. Dieta.

Antes de dormir uma oração.
Amanhã tudo outra vez.
Pode deixar que eu te aviso quando formos embora viu Seu Segurança?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Carta a um filho extraordinário

Bernardo,

Eu sempre fui apaixonada pelas palavras. A possibilidade de traduzir a experiência humana através delas até hoje me encanta.
Há muito tempo atrás eu fiz uma redação. Estava na quinta ou sexta série e adorava escrever. No dia da entrega a professora perguntou quem gostaria de ler seu texto em voz alta e eu, é claro, me ofereci. Li o texto toda confiante mas quando terminei vi a professora de braços cruzados, com uma expressão bem severa.
Ela disse: "Quem você pensa que é?". Sem que eu tivesse tempo de responder ela continuou: "Você acha que é o Guimarães Rosa pra sair inventando palavras desse jeito!? Pode refazer esse texto e dessa vez com palavras que existem!". Eu fiquei revoltadissima e não reescrevi o texto. Me recusava a aceitar que não tinha o direito de inventar minhas próprias palavras, que esse era um privilégio exclusivo de um escritor que na época eu nem conhecia! Continuei subvertendo e inventando minhas próprias palavras sempre que houvesse necessidade.
Até que veio você!
A necessidade de inventar uma palavra para você me atravessou e me deixou, durante muito tempo, perdida em pensamentos.
Poderia me recolher e justificar que você está no domínio do indizível. Daquilo cuja essência palavra nenhuma captura. Só que eu acredito no poder das palavras. A bagagem que cada palavra traz consigo pode tanto ajudar quanto atrapalhar nossa viagem. E eu queria uma palavra pra ser sua.
Daqui há algum tempo você pode não lembrar do que aconteceu, mas as palavras se farão presentes para lembrar do longo caminho que percorremos juntos. Você nasceu com um nó verdadeiro no cordão umbilical e teve complicações durante o parto devido a ele. Essas complicações causaram lesões cerebrais que trouxeram outros problemas. Hoje sabemos que você tem paralisia cerebral e epilepsia e vai precisar de tratamentos e medicação pelo resto da sua vida.
Para mim e para o seu pai isso não tem muita importância. O diagnóstico serve mais como um horizonte para onde miramos e não como uma gaiola que nos aprisiona. Nós faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que você desenvolva o máximo de seu potencial e eu não duvido nadinha que você ainda vai subverter muitas expectativas.
Como sou muito apaixonada tanto pelas palavras quanto por você fiquei escolhendo criteriosamente qual palavra usaria pra contar da sua condição para as pessoas. Deficiente? Especial?
Não gosto de nenhuma dessas palavras, mas tenho um particular desprezo pela palavra 'especial'. Sei que ela deveria dizer das necessidades especiais que um certo grupo de pessoas têm, mas não penso assim. Para mim especial tem a ver com singularidade e eu, numa visão que por muitos é considerada ingênua, acho todo mundo especial. Não existem duas pessoas iguais, nem mesmo aquelas que partilham o mesmo DNA! Então, pela celebração da singularidade de todo e cada indivíduo, não quero usar a palavra especial.
Já deficiente é uma palavra lógica, objetiva, que comunica sem rodeios. Só que pra mim ela traz consigo o peso de uma determinação, um enclausuramento. É uma palavra que esquece de dizer da potência de superação de quem tem alguma limitação. Sua intensa luta nesses últimos cinco meses também não cabe nessa palavra.
Procurando pela palavra perfeita lembrei das muitas pessoas que, ao ver suas fotos ou conhece-lo pessoalmente, dizem: "Nossa, mas ele parece uma criança normal!". Esse comentário me irritava profundamente, mas eu me apegava à tentativa do interlocutor de atribuir normalidade como um elogio. Eu não tive lesões cerebrais e fui uma criança bem diferente do normal então o que é normal?
Foi aí, neste exato momento, onde eu encontrei a palavra que procurava pra te descrever. E fiquei tão feliz que resolvi te escrever. Não é uma palavra inventada e sim um novo uso pra uma velha palavra.
Pra mim, filho, você é EXTRAORDINÁRIO.
Porque você veio rompendo com a ordem das coisas. Porque você bagunçou tudo o que eu achava que sabia sobre o mundo, sobre mim mesma e sobre a maternidade. Porque você me revelou que a perfeição é um prisma multifacetado. Porque você é desenho e desígnio do divino em um único corpo. Porque você é a conciliação dos impossíveis.
Você é a palavra que se fez carne. Meu maior neologismo. E eu não precisei ser Guimarães Rosa pra te inventar. Você inventou em mim a maternidade e hoje essa é a melhor porção de mim. Seguiremos juntos inventando palavras e partilhando sonhos enquanto a vida nos permitir.

Todo o amor do mundo,
Sua Mãe.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O relato de parto

Sempre adorei relatos de parto.
Durante todo o período de planejamento da gravidez, e da gravidez de fato, eu li inúmeros relatos.
Domiciliares, hospitalares, não assistidos, que terminavam em cesária, sofridos, suaves, serenos... em comum todos relatavam o potencial transformador da experiência e eu alimentei a esperança de um dia poder narrar minha própria transformação.
Mas, quis o destino que não fosse assim. Até hoje não consegui escrever o relato propriamente dito, mas já perdi as contas de quantas vezes tive que relatar tudo para médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, fonoaudiologas, psicólogas e até nutricionistas!
Então eu desenvolvi um método. Frases curtas com todas as informações que os médicos querem saber, ditas em alta velocidade pra sobrar tempo pra contar a história que vem depois do parto (quase na mesma velocidade de "este medicamento é contra indicado em casos de suspeita de dengue").
Ficou mais ou menos assim:

Primigesta, obesa, gestação sem intercorrências.
Duas curvas glicêmicas, diabetes gestacional descartado.
Flutuação da pressão na 37a semana. Controle com metildopa e acupuntura.
Pico de pressão na consulta de 39+5.
Rotina de exames de pré eclampsia no pronto socorro.
Exames sem alteração.
Escolha pela indução devido a proximidade do termo.
Introdução de misoprostol vaginal. Ruptura da bolsa após o terceiro comprimido.
Monitoração fetal não mostrava frequências cardíacas não tranquilizadoras.
Expulsivo prolongado, dificuldade de posicionamento.
Posição ginecológica e ocitocina, em 3 contrações nasceu.
Nó verdadeiro de cordão. Duplo.
Aspirado e ventilado manualmente. 
Apgar 3-7. Boa resposta, permaneceu em contato pele a pele.
4.410kg. Sem forceps, sem analgesia, sem episiotomia.
Controle de dextro na UTI Neonatal.
Gasometria ok.
16 horas pós nascimento fez apneias e convulsionou.

Aí os profissionais me olham com aquela cara de espanto, por ter transformado 40 semanas de gestação e 12 horas de trabalho de parto em uma coisa tão científica e impessoal.
Espero que um dia, quando toda essa loucura de sucessivas internações passar, eu possa olhar pra esse momento com poesia e escrever.
Contar que eu me desfiz em lágrimas diversas vezes ao longo do parto. Contar que eu lembro do cheiro do líquido amniótico até hoje (e me embrulha o estômago). Contar que eu recebi carinho e acolhimento da equipe mais incrível que eu poderia ter escolhido. Contar que durante o parto experimentei pela primeira vez um silêncio mental incrível. Contar que minha consciência corporal era muito maior do que eu jamais imaginei.
Contar do caminho que trilhamos até nos encontrarmos. Contar do quanto sou grata por você ter me escolhido. Contar do amor que cura e vence todo e qualquer obstáculo.
Fé, força e esperança!
Esse dia há de chegar...

No meio do caminho (livre adaptação)


No meio do caminho tinha um nó
tinha um nó no meio do caminho
tinha um nó
no meio do caminho tinha uma nó.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha um nó

Tinha um nó no meio do caminho

no meio do caminho tinha um nó.