segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Crônica da solidão hospitalar

10:50 - O segurança passa e espia pelo vidro se o paciente Bernardo continua internado. Anota alguma coisa em sua prancheta e vai embora.

11:00 - Horário de medicação. Após o procedimento a enfermeira sai do quarto deixando a porta aberta. Sentada na poltrona vejo o postinho de enfermagem e toda a movimentação de pessoas lá fora. É horário de visitas, mas parece que não veio ninguém nos visitar. O Bernardo resmunga de sono e acaba adormecendo no meu colo, enquanto meu olhar se perde na movimentação lá de fora.

14:50 - Mais uma vez aparece o segurança. Prancheta em mãos para confirmar que o Bernardo ainda está aqui. Como eu queria que ele não estivesse, moço! Infelizmente querer não é poder.

15:00 - Através do vidro jateado vejo os contornos da minha mãe. Ela surge com o esvoaçante avental azul dos visitantes e já traz os olhos rasos d'agua. Dos pouco mais de 150 dias de vida do Bernardo já ficamos 56 internados. Um terço da vida dele. Um terço da nossa vida com ele. Ela elogia o aspecto saudável dele e pede que eu tenha força. Anuncia que precisa ser rápida porque meu tio e minha tia estão na recepção e querem entrar também e para isso é preciso revezar. Eles três são os guardiões do meu amor mais ancestral e trazem consigo a força que eu preciso para viver mais sabe-se lá quantos dias dentro deste aquário. Cada um se despede com um abraço demorado e percebo como fazem força para represar o choro. Está tudo bem, gente. Está tudo bem.

20:50 - Outro segurança aparece no corredor. Não, nós não fomos pra lugar nenhum. E pra ser sincera nem previsão de ir pra outro canto nós temos.

21:00 - As vezes alguém aparece. As vezes não. Eu fico torcendo que alguém de fora venha me abraçar e dizer que tudo vai ficar bem. Mesmo que ninguém saiba ao certo. Mesmo que seja mentira. É o reforço da dose de esperança que eu preciso pra não naufragar no oceano de maus prognósticos e estatísticas piores ainda. A vida na UTI é solitária e monotematica.

23:00 - Minha sogra ou meu marido assumem o plantão noturno. Eu volto pra casa sentindo como se tivesse passado o dia dentro de uma caverna. O corpo descansa na cama, mas a cabeça permanece hospitalizada. Diurese. Evacuação. Sinais vitais. Dieta.

Antes de dormir uma oração.
Amanhã tudo outra vez.
Pode deixar que eu te aviso quando formos embora viu Seu Segurança?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Carta a um filho extraordinário

Bernardo,

Eu sempre fui apaixonada pelas palavras. A possibilidade de traduzir a experiência humana através delas até hoje me encanta.
Há muito tempo atrás eu fiz uma redação. Estava na quinta ou sexta série e adorava escrever. No dia da entrega a professora perguntou quem gostaria de ler seu texto em voz alta e eu, é claro, me ofereci. Li o texto toda confiante mas quando terminei vi a professora de braços cruzados, com uma expressão bem severa.
Ela disse: "Quem você pensa que é?". Sem que eu tivesse tempo de responder ela continuou: "Você acha que é o Guimarães Rosa pra sair inventando palavras desse jeito!? Pode refazer esse texto e dessa vez com palavras que existem!". Eu fiquei revoltadissima e não reescrevi o texto. Me recusava a aceitar que não tinha o direito de inventar minhas próprias palavras, que esse era um privilégio exclusivo de um escritor que na época eu nem conhecia! Continuei subvertendo e inventando minhas próprias palavras sempre que houvesse necessidade.
Até que veio você!
A necessidade de inventar uma palavra para você me atravessou e me deixou, durante muito tempo, perdida em pensamentos.
Poderia me recolher e justificar que você está no domínio do indizível. Daquilo cuja essência palavra nenhuma captura. Só que eu acredito no poder das palavras. A bagagem que cada palavra traz consigo pode tanto ajudar quanto atrapalhar nossa viagem. E eu queria uma palavra pra ser sua.
Daqui há algum tempo você pode não lembrar do que aconteceu, mas as palavras se farão presentes para lembrar do longo caminho que percorremos juntos. Você nasceu com um nó verdadeiro no cordão umbilical e teve complicações durante o parto devido a ele. Essas complicações causaram lesões cerebrais que trouxeram outros problemas. Hoje sabemos que você tem paralisia cerebral e epilepsia e vai precisar de tratamentos e medicação pelo resto da sua vida.
Para mim e para o seu pai isso não tem muita importância. O diagnóstico serve mais como um horizonte para onde miramos e não como uma gaiola que nos aprisiona. Nós faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que você desenvolva o máximo de seu potencial e eu não duvido nadinha que você ainda vai subverter muitas expectativas.
Como sou muito apaixonada tanto pelas palavras quanto por você fiquei escolhendo criteriosamente qual palavra usaria pra contar da sua condição para as pessoas. Deficiente? Especial?
Não gosto de nenhuma dessas palavras, mas tenho um particular desprezo pela palavra 'especial'. Sei que ela deveria dizer das necessidades especiais que um certo grupo de pessoas têm, mas não penso assim. Para mim especial tem a ver com singularidade e eu, numa visão que por muitos é considerada ingênua, acho todo mundo especial. Não existem duas pessoas iguais, nem mesmo aquelas que partilham o mesmo DNA! Então, pela celebração da singularidade de todo e cada indivíduo, não quero usar a palavra especial.
Já deficiente é uma palavra lógica, objetiva, que comunica sem rodeios. Só que pra mim ela traz consigo o peso de uma determinação, um enclausuramento. É uma palavra que esquece de dizer da potência de superação de quem tem alguma limitação. Sua intensa luta nesses últimos cinco meses também não cabe nessa palavra.
Procurando pela palavra perfeita lembrei das muitas pessoas que, ao ver suas fotos ou conhece-lo pessoalmente, dizem: "Nossa, mas ele parece uma criança normal!". Esse comentário me irritava profundamente, mas eu me apegava à tentativa do interlocutor de atribuir normalidade como um elogio. Eu não tive lesões cerebrais e fui uma criança bem diferente do normal então o que é normal?
Foi aí, neste exato momento, onde eu encontrei a palavra que procurava pra te descrever. E fiquei tão feliz que resolvi te escrever. Não é uma palavra inventada e sim um novo uso pra uma velha palavra.
Pra mim, filho, você é EXTRAORDINÁRIO.
Porque você veio rompendo com a ordem das coisas. Porque você bagunçou tudo o que eu achava que sabia sobre o mundo, sobre mim mesma e sobre a maternidade. Porque você me revelou que a perfeição é um prisma multifacetado. Porque você é desenho e desígnio do divino em um único corpo. Porque você é a conciliação dos impossíveis.
Você é a palavra que se fez carne. Meu maior neologismo. E eu não precisei ser Guimarães Rosa pra te inventar. Você inventou em mim a maternidade e hoje essa é a melhor porção de mim. Seguiremos juntos inventando palavras e partilhando sonhos enquanto a vida nos permitir.

Todo o amor do mundo,
Sua Mãe.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O relato de parto

Sempre adorei relatos de parto.
Durante todo o período de planejamento da gravidez, e da gravidez de fato, eu li inúmeros relatos.
Domiciliares, hospitalares, não assistidos, que terminavam em cesária, sofridos, suaves, serenos... em comum todos relatavam o potencial transformador da experiência e eu alimentei a esperança de um dia poder narrar minha própria transformação.
Mas, quis o destino que não fosse assim. Até hoje não consegui escrever o relato propriamente dito, mas já perdi as contas de quantas vezes tive que relatar tudo para médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, fonoaudiologas, psicólogas e até nutricionistas!
Então eu desenvolvi um método. Frases curtas com todas as informações que os médicos querem saber, ditas em alta velocidade pra sobrar tempo pra contar a história que vem depois do parto (quase na mesma velocidade de "este medicamento é contra indicado em casos de suspeita de dengue").
Ficou mais ou menos assim:

Primigesta, obesa, gestação sem intercorrências.
Duas curvas glicêmicas, diabetes gestacional descartado.
Flutuação da pressão na 37a semana. Controle com metildopa e acupuntura.
Pico de pressão na consulta de 39+5.
Rotina de exames de pré eclampsia no pronto socorro.
Exames sem alteração.
Escolha pela indução devido a proximidade do termo.
Introdução de misoprostol vaginal. Ruptura da bolsa após o terceiro comprimido.
Monitoração fetal não mostrava frequências cardíacas não tranquilizadoras.
Expulsivo prolongado, dificuldade de posicionamento.
Posição ginecológica e ocitocina, em 3 contrações nasceu.
Nó verdadeiro de cordão. Duplo.
Aspirado e ventilado manualmente. 
Apgar 3-7. Boa resposta, permaneceu em contato pele a pele.
4.410kg. Sem forceps, sem analgesia, sem episiotomia.
Controle de dextro na UTI Neonatal.
Gasometria ok.
16 horas pós nascimento fez apneias e convulsionou.

Aí os profissionais me olham com aquela cara de espanto, por ter transformado 40 semanas de gestação e 12 horas de trabalho de parto em uma coisa tão científica e impessoal.
Espero que um dia, quando toda essa loucura de sucessivas internações passar, eu possa olhar pra esse momento com poesia e escrever.
Contar que eu me desfiz em lágrimas diversas vezes ao longo do parto. Contar que eu lembro do cheiro do líquido amniótico até hoje (e me embrulha o estômago). Contar que eu recebi carinho e acolhimento da equipe mais incrível que eu poderia ter escolhido. Contar que durante o parto experimentei pela primeira vez um silêncio mental incrível. Contar que minha consciência corporal era muito maior do que eu jamais imaginei.
Contar do caminho que trilhamos até nos encontrarmos. Contar do quanto sou grata por você ter me escolhido. Contar do amor que cura e vence todo e qualquer obstáculo.
Fé, força e esperança!
Esse dia há de chegar...

No meio do caminho (livre adaptação)


No meio do caminho tinha um nó
tinha um nó no meio do caminho
tinha um nó
no meio do caminho tinha uma nó.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha um nó

Tinha um nó no meio do caminho

no meio do caminho tinha um nó.