segunda-feira, 2 de maio de 2016

Reencontro de almas

Foi uma semana dura. Vi meu filho sedado e entubado e me vi sem chão.
Testemunhar uma criança tão pequena sofrendo todas aquelas intervenções é uma das experiências mais dolorosas da vida. Ainda que ele fosse extubado a overdose de anticonvulsivantes o manteria em uma realidade paralela. Aquele ali, sonolento e hipoativo, não era meu filho. A sensação paradoxal de ter seu corpo ao alcance das mãos mas ter sua consciência em um universo paralelo é devastadora.
Eu me sentava ao lado do berço e imaginava os caminhos por onde aquela alma passeava. "Que sejam caminhos de alegria e cura", pensava. Vez ou outra via um sorriso involuntário, fruto dos sonhos que ele vivia em seu sono profundo...
Desde que o Bernardo nasceu eu tenho um medo profundo que me acompanha. Começou na alta da uti neonatal a minha aflição incessante achando que ele era cego. Sem enxergar, como ele me reconheceria como mãe?
Por mais que as pessoas tentassem afastar o delírio, dizendo que ele ainda teria todos os outros sentidos para me saber sua mãe, eu chorava.
A hipótese da cegueira foi descartada, mas o medo sempre permaneceu ali, rodeando, cercando pelas beiradas.
Nessa internação ele me invadiu completamente. Será que as convulsões tiraram dele a capacidade de me reconhecer? Será que esse reconhecimento permanecerá mesmo se o dano neurológico levar todo o resto embora?
Reconhecimento.
Embriagada por esse sentimento passei uma semana infernal. Meu corpo doía e chorava por qualquer coisa, enquanto conversava com Deus e comigo mesma, ao lado do berço, esperando os efeitos adversos da sedação passarem.
No final de semana cedi lugar para minha sogra e fui para casa. Dormi longas horas e cuidei do corpo cansado. Tive dezenas de sonhos. Fortaleci minha fé e otimismo e, no domingo a noite, regressei.
Entrei no quarto e vi meu filho acordado, comendo uma papinha salgada no colo de sua avó. Eu tinha vindo da rua, ainda não havia higienizado as mãos nem tirado a mochila das costas, mas me ajoelhei em frente a ele para que nossos olhos ficassem na mesma altura.
Ele abriu um sorriso imenso e olhou com seus olhos azuis no fundo da minha alma. Mexeu os bracinhos contente e ali, naquele momento, meu medo de não ser reconhecida foi aniquilado.
Fui invadida pela sensação de que aquele momento era apenas um REconhecimento. Que nossas almas são parceiras antigas, unidas pelo amor e maiores que o tempo ou as circunstâncias.
O corpo que nós dois habitamos é apenas a matéria necessária pra completarmos, juntos, essa missão.
Agora eu me reconheço mãe. A tua mãe. A melhor mãe que posso ser. O mais importante título que já ostentei nessa vida foi um dos presentes que ganhei com sua chegada. Você é a minha dádiva!
Dizem que o amor não conhece limites. Nossa parceria de amor também não.

2 comentários:

  1. Natasha, impossível ler seus depoimentos sem que os olhos transbordem de lágrimas... Vcs são a prova viva de que Deus não nos submete à provas maiores do q suportamos, pois muitos (e me incluo aqui) provavelmente não teriam sequer uma pequena parte de toda sua lucidez...
    Que seus laços se fortaleçam cada vez mais e que vc continue nos presenteando com este EXEMPLO de amor e superação.
    Sou muito grato por aprender tantas lições através de suas experiências!!
    Fiquem com Deus!
    Bj no coração de vcs

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