10:50 - O segurança passa e espia pelo vidro se o paciente Bernardo continua internado. Anota alguma coisa em sua prancheta e vai embora.
11:00 - Horário de medicação. Após o procedimento a enfermeira sai do quarto deixando a porta aberta. Sentada na poltrona vejo o postinho de enfermagem e toda a movimentação de pessoas lá fora. É horário de visitas, mas parece que não veio ninguém nos visitar. O Bernardo resmunga de sono e acaba adormecendo no meu colo, enquanto meu olhar se perde na movimentação lá de fora.
14:50 - Mais uma vez aparece o segurança. Prancheta em mãos para confirmar que o Bernardo ainda está aqui. Como eu queria que ele não estivesse, moço! Infelizmente querer não é poder.
15:00 - Através do vidro jateado vejo os contornos da minha mãe. Ela surge com o esvoaçante avental azul dos visitantes e já traz os olhos rasos d'agua. Dos pouco mais de 150 dias de vida do Bernardo já ficamos 56 internados. Um terço da vida dele. Um terço da nossa vida com ele. Ela elogia o aspecto saudável dele e pede que eu tenha força. Anuncia que precisa ser rápida porque meu tio e minha tia estão na recepção e querem entrar também e para isso é preciso revezar. Eles três são os guardiões do meu amor mais ancestral e trazem consigo a força que eu preciso para viver mais sabe-se lá quantos dias dentro deste aquário. Cada um se despede com um abraço demorado e percebo como fazem força para represar o choro. Está tudo bem, gente. Está tudo bem.
20:50 - Outro segurança aparece no corredor. Não, nós não fomos pra lugar nenhum. E pra ser sincera nem previsão de ir pra outro canto nós temos.
21:00 - As vezes alguém aparece. As vezes não. Eu fico torcendo que alguém de fora venha me abraçar e dizer que tudo vai ficar bem. Mesmo que ninguém saiba ao certo. Mesmo que seja mentira. É o reforço da dose de esperança que eu preciso pra não naufragar no oceano de maus prognósticos e estatísticas piores ainda. A vida na UTI é solitária e monotematica.
23:00 - Minha sogra ou meu marido assumem o plantão noturno. Eu volto pra casa sentindo como se tivesse passado o dia dentro de uma caverna. O corpo descansa na cama, mas a cabeça permanece hospitalizada. Diurese. Evacuação. Sinais vitais. Dieta.
Antes de dormir uma oração.
Amanhã tudo outra vez.
Pode deixar que eu te aviso quando formos embora viu Seu Segurança?
tenho gostado muito de ler você, Natasha! <3
ResponderExcluirreaprendendo a postar um comentário para não ser como o segurança que só passa e vê; e para dizer que tenho gostado muito dos textos. abraços em vocês!
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