Bernardo,
Eu sempre fui apaixonada pelas palavras. A possibilidade de traduzir a experiência humana através delas até hoje me encanta.
Há muito tempo atrás eu fiz uma redação. Estava na quinta ou sexta série e adorava escrever. No dia da entrega a professora perguntou quem gostaria de ler seu texto em voz alta e eu, é claro, me ofereci. Li o texto toda confiante mas quando terminei vi a professora de braços cruzados, com uma expressão bem severa.
Ela disse: "Quem você pensa que é?". Sem que eu tivesse tempo de responder ela continuou: "Você acha que é o Guimarães Rosa pra sair inventando palavras desse jeito!? Pode refazer esse texto e dessa vez com palavras que existem!". Eu fiquei revoltadissima e não reescrevi o texto. Me recusava a aceitar que não tinha o direito de inventar minhas próprias palavras, que esse era um privilégio exclusivo de um escritor que na época eu nem conhecia! Continuei subvertendo e inventando minhas próprias palavras sempre que houvesse necessidade.
Até que veio você!
A necessidade de inventar uma palavra para você me atravessou e me deixou, durante muito tempo, perdida em pensamentos.
Poderia me recolher e justificar que você está no domínio do indizível. Daquilo cuja essência palavra nenhuma captura. Só que eu acredito no poder das palavras. A bagagem que cada palavra traz consigo pode tanto ajudar quanto atrapalhar nossa viagem. E eu queria uma palavra pra ser sua.
Daqui há algum tempo você pode não lembrar do que aconteceu, mas as palavras se farão presentes para lembrar do longo caminho que percorremos juntos. Você nasceu com um nó verdadeiro no cordão umbilical e teve complicações durante o parto devido a ele. Essas complicações causaram lesões cerebrais que trouxeram outros problemas. Hoje sabemos que você tem paralisia cerebral e epilepsia e vai precisar de tratamentos e medicação pelo resto da sua vida.
Para mim e para o seu pai isso não tem muita importância. O diagnóstico serve mais como um horizonte para onde miramos e não como uma gaiola que nos aprisiona. Nós faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que você desenvolva o máximo de seu potencial e eu não duvido nadinha que você ainda vai subverter muitas expectativas.
Como sou muito apaixonada tanto pelas palavras quanto por você fiquei escolhendo criteriosamente qual palavra usaria pra contar da sua condição para as pessoas. Deficiente? Especial?
Não gosto de nenhuma dessas palavras, mas tenho um particular desprezo pela palavra 'especial'. Sei que ela deveria dizer das necessidades especiais que um certo grupo de pessoas têm, mas não penso assim. Para mim especial tem a ver com singularidade e eu, numa visão que por muitos é considerada ingênua, acho todo mundo especial. Não existem duas pessoas iguais, nem mesmo aquelas que partilham o mesmo DNA! Então, pela celebração da singularidade de todo e cada indivíduo, não quero usar a palavra especial.
Já deficiente é uma palavra lógica, objetiva, que comunica sem rodeios. Só que pra mim ela traz consigo o peso de uma determinação, um enclausuramento. É uma palavra que esquece de dizer da potência de superação de quem tem alguma limitação. Sua intensa luta nesses últimos cinco meses também não cabe nessa palavra.
Procurando pela palavra perfeita lembrei das muitas pessoas que, ao ver suas fotos ou conhece-lo pessoalmente, dizem: "Nossa, mas ele parece uma criança normal!". Esse comentário me irritava profundamente, mas eu me apegava à tentativa do interlocutor de atribuir normalidade como um elogio. Eu não tive lesões cerebrais e fui uma criança bem diferente do normal então o que é normal?
Foi aí, neste exato momento, onde eu encontrei a palavra que procurava pra te descrever. E fiquei tão feliz que resolvi te escrever. Não é uma palavra inventada e sim um novo uso pra uma velha palavra.
Pra mim, filho, você é EXTRAORDINÁRIO.
Porque você veio rompendo com a ordem das coisas. Porque você bagunçou tudo o que eu achava que sabia sobre o mundo, sobre mim mesma e sobre a maternidade. Porque você me revelou que a perfeição é um prisma multifacetado. Porque você é desenho e desígnio do divino em um único corpo. Porque você é a conciliação dos impossíveis.
Você é a palavra que se fez carne. Meu maior neologismo. E eu não precisei ser Guimarães Rosa pra te inventar. Você inventou em mim a maternidade e hoje essa é a melhor porção de mim. Seguiremos juntos inventando palavras e partilhando sonhos enquanto a vida nos permitir.
Todo o amor do mundo,
Sua Mãe.
Força Natasha, serão muitas as conquistas!!! Bjs
ResponderExcluirIra
Como assim " ele parece normal" ??? Ele não é normal...pq eu não encontro bochechas gostosas assim em qualquer lugar!! Normal para mim é algo que se encaixa no padrão...corriqueiro...e o Bernardo está longe de ser normal! Já veio com os dois pés na porta dando voadora e mostrando q se os pais dele ficassem sem forças, ele tinha pelos dois! Lutou pela vida dele. E olha quantas vidas ele mudou?! Não foi apenas dos familiares...creio q cada um dos amigos próximos, distantes, de agora, de tempos remotos, do trabalho, faculdade, do colégio... Em algum momento paramos nossa rotina corrida e desafiamos nossa fé parando e rezando por esse ser tão lindo que soubemos crescer no ventre de uma pessoa tão querida...cheia de conflitos, bocuda, brigona, q ficou anos sem falar comigo nem lembro direito pq, mas que eu sempre respeito pelas suas opinioes, mesmo quase sempre contrárias às minhas e sempre admirei pela sinceridade e pela coragem! E se o Bernardo puxar a mãe...sinto dizer, vai ser muito amado e muito odiado ao mesmo tempo...pq ser Natasha é ser intensa! Lembro quando falavam da gente : " era Ana Paula, agora é Natasha... Usa um salto 15, saia de borracha!". O mundo é muito viciado na normalidade é por isso que estamos caminhando para um abismo! Adoro vc Ná e quero mto apertar essas bochechas!
ResponderExcluirPS: o apertar de bochechas não é para vc, Ná! E para as bochechas gostosas do Bernardo!!
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