Quando eu estava grávida de 38 semanas estava muito aflita. Naquela noite não conseguia dormir de jeito nenhum, então resolvi escrever uma carta pro bebê que esperava. Eu e o Dani escolhemos não conhecer o sexo do bebê e até ali conversávamos com ele de maneira genérica.
Escrevi a carta em um caderno e chorei muito enquanto a escrevia. Fechei o caderno, guardei em uma gaveta qualquer e fui dormir anestesiada pelas lágrimas e pela emoção.
Hoje, quase 6 meses depois, o Daniel procurava um caderno para rascunho quando encontrou esse e leu a carta que lá estava. Parecia um prenúncio de tudo o que viveríamos juntos futuramente.
Ele me escreveu emocionado após ter lido a carta e eu decidi compartilhar o texto aqui porque ele pulsa amor e verdade.
São Paulo, 8 de setembro de 2015.
Olá bebê!
Desde o começo dessa gestação eu venho querendo escrever. Separo papel, caneta e ímpeto e acabo nunca concretizando meu desejo. É que ao mesmo tempo que eu tenho TANTO para contar me parece surreal tê-lo como interlocutor. Acho que é porque eu tenho medo que você seja apenas mais uma ideia louca que habita dentro de mim, a despeito de todas as provas de sua concretude que eu encaro diariamente.
Juntos passamos por muita coisa desde que eu descobri que você morava aí dentro de mim. Desde a descoberta, até reviravoltas que a vida deu, nos mantivemos juntos e fortes. Confesso que fiquei mais apreensiva do que deveria em muitos momentos. Você vai testemunhar que o mundo aqui fora é bem cruel em alguns de seus discursos e isso me causou, em alguns momentos, profundo desgaste.
É que eu te desejei TANTO, te imaginei TANTO, que quando me vi grávida achei que a vida estava me zombando. Que eu não era merecedora da dádiva. Que todas as boas coisas que me chegavam seriam contaminadas por problemas. Posso dizer que passei as últimas 38 semanas repetindo pra mim mesma que NÃO! Que você me escolheu pra ser sua mãe, que abdicou e renunciou de coisas que eu nem consigo imaginar para estar JUNTO comigo e com seu pai. Para aprender conosco. Para nos ensinar. Eu venho repetindo isso dia e noite, mas algumas coisas não são fáceis de reprogramar em nossas cabeças.
Desde muito pequena eu cresci acreditando que havia um problema comigo. Mais especificamente com meu corpo. Que meu desenvolvimento era diferente das meninas minha idade e que isso me fazia pior, a esquisita, um ser estranho. Ficou mais esquisito quando todas as meninas menstruaram e eu não. Os exames apontavam que tudo estava bem, mas meu tempo era diferente e eu aprendi a detestar e abominar essa minha “demora” para as coisas.
Isso se repetiu muitas outras vezes depois, em outras ocasiões e circunstâncias. Apesar da vida adulta ter me proporcionado um montão de quebras de paradigmas, essa sombra permanecia silenciosa ao meu lado. Ela se manifestou feroz quando comecei a tentar engravidar. Eu pensava: “se meu corpo é devagar pra tudo, quem disse que vou conseguir engravidar logo?”. Só que você queria muito vir pra minha vida e logo no primeiro mês recebi o anúncio de sua existência em mim.
Passamos 38 semanas juntos sem nenhuma intercorrência médica séria. Parece que esse corpo do qual eu sempre desconfiei fez um trabalho Incrível gestando um bebê grandão e saudável. Até que a linha de chegada foi se aproximando e eu me vi, mais uma vez, assolada pelo medo. Eu pensei: “e se eu não entrar em trabalho de parto?”, mesmo sabendo que isso é cientificamente impossível. Quando você estiver aqui fora vai entender que informação é diferente de crença, às vezes não adianta saber muito uma coisa se dentro de você brotam vozes dissonantes, dúvidas e questionamentos. Eu me deixei levar e, nas últimas semanas, fui acometida por uma crise de bronquite absurda, que não acontecia há muitos anos. Não conseguia falar, respirar, deitar, dormir, NADA. Só escutava meu peito congestionado chiando e eu tossindo e tossindo dia afora. Era o medo instalado em meus pulmões. O fantasma da minha incapacidade me congestionando. Já consigo respirar melhor, mas ainda não me sinto completamente livre do medo. E este é só o primeiro de muitos que vou experimentar ao ingressar no universo da maternidade. O medo de ser incapaz de te trazer pra esse mundo só vai mudando de “cara” conforme mudam as dificuldades que você terá que enfrentar.
Digo isso com o coração apertado, porque desde já queria poder te proteger de tudo de ruim, difícil, pesado ou negativo que existe nesse mundo, mas não posso. Porque essas experiências nos constituem, nos tornam quem nós somos. Eu sofri muito pra chegar até aqui. Todas as pessoas sofrem. Mas foi a certeza do amor daqueles que me rodeavam que me manteve de pé. Que permitiu que eu estivesse aqui HOJE te esperando.
O mesmo amor que me mantém em pé será o que vai te ajudar a se sustentar nos momentos de dor e sofrimento. Quando não houver mais certezas, ainda assim haverá o testemunho do amor de tantos, pra te ajudar a dar o próximo passo. Amores eternos dos tantos passageiros com quem partilhamos essa existência (e tantas outras).
Peço desculpas pela angústia e afobamento dos últimos dias. Eu te aguardo com tanto amor e curiosidade de mal consigo me conter e relaxar. Venha quando estiver pronto. Eu confio que o amor tem a resposta para todos os meus e os seus medos e aqui fora poderemos partilhar a forma mais pura dele.
Como eu já te disse muitas vezes, seu pai, a Maggie e o Sansão te aguardam ansiosos, junto com uma família numerosa cheia de coisas pra compartilhar contigo. Até aqueles que já foram te aguardam ansiosos.
Te amo. Te espero. Venha assim que puder.
Todo o amor do mundo
da sua mãe,
Natasha
Natasha,
ResponderExcluirQue lindo!realmente vc tem um dom para escrever!
Parece que sua alma já sabia dos desafios que viriam pela frente. Vc está indo bem e vcs ainda vão ter muitos outros medos, mas tenho certeza que vão supera-los!
Conte com as minhas orações!
Renata Kamimura (do grupo do pós parto da Commadre no whatsapp)