sábado, 25 de março de 2017

Michelangelo, Davi e histórias antes de dormir

            Eu percebi que prefiro contar “histórias de boca” para o Bernardo. Apesar dele ter uma biblioteca com muitos títulos infantis eu sinto que contando histórias com minhas próprias palavras posso acessar outros sentidos que ficam um pouco limitados com a leitura.
            Não temos um ritual estabelecido, muito menos uma periodicidade. Conto histórias quando meu coração pede e essa semana, em meio ao caos de uma nova internação hospitalar, lembrei de uma história.
            Há dias ele não vinha pro meu colo por conta de uma complicação na gastrostomia que fazia (e ainda faz) todo o conteúdo estomacal vazar. Depois de um banho noturno gostoso pedi pra técnica me ajudar a segura-lo sem dobrar o abdômen e ali, grudadinha nele, contemplei a fortaleza daquele menininho. Por trás daquele corpinho rechonchudo havia 18 meses de força e resiliência tremendas.
            Lembrei então da história por trás da escultura de Davi, feita por Michelangelo. Uma das maiores obras primas da história da arte mundial foi esculpida por um gênio em um bloco que já havia sido preterido por muitos. Permanecia abandonado em uma praça de Florença quando Michelangelo viu nele os atributos necessários para contar a história de um grande herói. Um herói cuja vulnerabilidade dialoga diretamente com a aparente fragilidade da matéria prima.
            Contei toda a história. Descrevi minuciosamente a aparência das praças fiorentinas. A riqueza dos Médici. A beleza das curvas do guerreiro Davi. As belezas que eu tive a felicidade de ver e conhecer pessoalmente. Por um tempo breve nos transportamos para a cidade de Florença sem ter saído daquele leito da UTI. Poder da imaginação.
            Naquela noite contei para o meu filho a história de um escultor e sua obra. Contei a história bíblica do herói que o artista decidiu representar. E como a aparente vulnerabilidade do herói original e da matéria prima conferiram ainda mais grandiosidade à história. Fui arrebatada por uma epifania enquanto esmiuçava os detalhes e percebi que tanto o bloco de mármore quanto o personagem bíblico tinham em si os atributos necessários para cumprir seus destinos. Infelizmente apenas seus criadores haviam enxergado isso.
            Naquela noite, antes de dormir, falei para o meu filho que ele possui todos os atributos necessários para cumprir seu destino. Sua jornada heroica particular. É importante reavivar esse pressuposto porque eventualmente nossa percepção das coisas fica prejudicada pelas circunstâncias e essa certeza há de ser maior do que todas as outras.
            Davi venceu Golias. O bloco preterido tornou-se uma das maiores obras de arte da história. Fragilidades que se converteram em histórias de superação. Alegorias da capacidade de superar adversidades. Em comum não apenas a vulnerabilidade, mas a força que trazemos em nós mesmos para cumprir nossos próprios destinos, ainda que duvidemos disso.
           Sua aparente fragilidade só preenche nossa história de grandiosidade, meu filho. E não há nada mais grandioso nesta vida do que ter a oportunidade de ser sua mãe.

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