Sempre adorei relatos de parto.
Durante todo o período de planejamento da gravidez, e da gravidez de fato, eu li inúmeros relatos.
Domiciliares, hospitalares, não assistidos, que terminavam em cesária, sofridos, suaves, serenos... em comum todos relatavam o potencial transformador da experiência e eu alimentei a esperança de um dia poder narrar minha própria transformação.
Mas, quis o destino que não fosse assim. Até hoje não consegui escrever o relato propriamente dito, mas já perdi as contas de quantas vezes tive que relatar tudo para médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, fonoaudiologas, psicólogas e até nutricionistas!
Então eu desenvolvi um método. Frases curtas com todas as informações que os médicos querem saber, ditas em alta velocidade pra sobrar tempo pra contar a história que vem depois do parto (quase na mesma velocidade de "este medicamento é contra indicado em casos de suspeita de dengue").
Ficou mais ou menos assim:
Primigesta, obesa, gestação sem intercorrências.
Duas curvas glicêmicas, diabetes gestacional descartado.
Flutuação da pressão na 37a semana. Controle com metildopa e acupuntura.
Pico de pressão na consulta de 39+5.
Rotina de exames de pré eclampsia no pronto socorro.
Exames sem alteração.
Escolha pela indução devido a proximidade do termo.
Introdução de misoprostol vaginal. Ruptura da bolsa após o terceiro comprimido.
Monitoração fetal não mostrava frequências cardíacas não tranquilizadoras.
Expulsivo prolongado, dificuldade de posicionamento.
Posição ginecológica e ocitocina, em 3 contrações nasceu.
Nó verdadeiro de cordão. Duplo.
Aspirado e ventilado manualmente.
Apgar 3-7. Boa resposta, permaneceu em contato pele a pele.
4.410kg. Sem forceps, sem analgesia, sem episiotomia.
Controle de dextro na UTI Neonatal.
Gasometria ok.
16 horas pós nascimento fez apneias e convulsionou.
Aí os profissionais me olham com aquela cara de espanto, por ter transformado 40 semanas de gestação e 12 horas de trabalho de parto em uma coisa tão científica e impessoal.
Espero que um dia, quando toda essa loucura de sucessivas internações passar, eu possa olhar pra esse momento com poesia e escrever.
Contar que eu me desfiz em lágrimas diversas vezes ao longo do parto. Contar que eu lembro do cheiro do líquido amniótico até hoje (e me embrulha o estômago). Contar que eu recebi carinho e acolhimento da equipe mais incrível que eu poderia ter escolhido. Contar que durante o parto experimentei pela primeira vez um silêncio mental incrível. Contar que minha consciência corporal era muito maior do que eu jamais imaginei.
Contar do caminho que trilhamos até nos encontrarmos. Contar do quanto sou grata por você ter me escolhido. Contar do amor que cura e vence todo e qualquer obstáculo.
Fé, força e esperança!
Esse dia há de chegar...
caramba! quando escrever quero ler!
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